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22 setembro 2012

Espaghetti Western Made in Brasil – Especial

Muitos no Brasil nem desconfiam, mas muito antes da novela Bang-Bang, o Brasil teve sua fase na produção de faroestes. Nesses épicos tupiniquins, o uísque dava lugar á cachaça e caubóis viravam dioguinhos e gregórios. Descubra o inevitável western feijoada, o gênero mais Cult (e clandestino) do cinema nacional.

A inspiração para o primeiro bangue-bangue brasileiro veio de uma fita sobre o cangaço. O pioneiro caubói, Maurício Morey, havia participado como figurante das filmagens de “O Cangaceiro” (1953) em Vargem Grande do Sul, cidade paulista. Lá, conquistou a estrela Marisa Prado, então noiva do diretor-geral de produção da companhia Vera Cruz. Acabou expulso do set e limado na montagem final do filme, que arrebentou as bilheterias e faturou o prêmio de melhor filme de aventura no Festival de Cannes. Traído, Morey decidiu dedicar-se à vingança. “Quando vi aquele sucesso, tive a certeza de que não faltaria público para um faroeste rodado em nossas paisagens”, explica ele, que hoje, aos 77 anos, é fazendeiro.

Morey convenceu o vice-prefeito de Santa Rita do Passa Quatro a produzir “Da Terra Nasce o Ódio” (1954), estrelado por ele e dirigido por seu irmão, o médico (sim, médico !) Antoninho Hossri- artisticamente Antoninho usava o sobrenome paterno e Maurício, o materno. Diferentemente das produções das décadas posteriores, geralmente exibidas no circuito secundário, "Da Terra Nasce o Ódio" estreou no luxuoso Art Palácio e em mais 14 cinemas de São Paulo.

Uma boa medida da repercussão é o fato de “The Big Country”, western de William Wyler, ter recebido no Brasil, quatro anos depois, o muito semelhante título “Da Terra Nascem os Homens” (1958). O sucesso foi tanto que, nos quatro anos seguintes, foram produzidos 13 bangue-bangues rurais. Entre eles, uma nova versão da história real do bandoleiro “Dioguinho” (1957), que já rendera um filme mudo em 1917, agora com Hélio Souto e John Herbert sob direção de Carlos Coimbra (futuro especialista em filmes de cangaço). Seguiram-se “A Sina do Aventureiro” (1958), estréia de José Mojica Marins (o Zé do Caixão) como direitor, e Fronteiras do Inferno (1959), do cineasta “cabeça” Walter Hugo Khouri. Morey, empolgado, estrelou duas novas aventuras: “A Lei do Sertão” (1956) e “Homens sem Paz” (1957). Na primeira, de novo sob ordens do irmão, ele teve a companhia de Milton Ribeiro (o vilão do O Cangaceiro) e Maurício do Valle (futuro intérprete de Antônio das Mortes, o matador de cangaceiros nos “westerns” engajados de Glauber Rocha). Ou seja, a fina flor do cinema macho da época.
De 1960 até 1968, foram produzidos sete faroestes no Brasil. A semente estava plantada. “Desde que assisti às fitas do Maurício Morey, a idéia de fazer um western não me saía da cabeça”, admite Rubens da Silva Prado, 61 anos. Ele concretizou seu sonho com Gregório 38 (1969) rodado em Guararema nos fins de semana.

Prado representa bem a geração de diretores radicada na Boca do Lixo, área do centro de São Paulo onde se concentravam nos anos 60 aos 80 e que hoje é conhecida como Cracolândia. “Produzi, dirigi, montei, compus a trilha sonora e, sob o pseudônimo de Alex Prado, fiz o protagonista, além de operar a câmera quando não estava em cena”, sintetiza o diretor-produtor- ator-etc.
No filme, o vilão Gregório, vivido por um tal Gran Dini, morre no final. Mas foi tão bem sucedido que o cineasta faz-tudo ressucitou o personagem, converteu-o em herói e passou ele mesmo à interpretá-lo nos inacreditáveis “Gregório Volta para Matar” (1974), “A Febre do Sexo” (1981) e “A Pistola que Elas Gostam” (1982). Gregório está para o western feijoada como Django está para o western spaghetti.

A filmografia de Rubens da Silva Prado, que tem ainda “Sangue em Santa Maria” (1971) e “A Vingança de Chico Mineiro” (1979), não nega fogo em dois quesitos imprescindíveis do western feijoada: tem muito sangue cenográfico e muita mulher pelada. Tanto que, nos anos 80, auge do cinema pornô brasileiro, ele inseriu seqüências de sexo explícito em “A Febre do Sexo” e o transformou em “Sexo Erótico na Ilha do Gavião” (1986). Fez a mesma coisa em “A Pistola que Elas Gostam”, que virou “O Gozo da Pistola” (1988). O homem é mesmo um gênio.
Ao lado de Gregório 38, dois outros títulos de 1969 desencadearam o segundo boom dos bangue-bangues rurais, agora já devidamente batizados de westerns feijoada: O carioca “O Tesouro de Zapata” e o paulistano “Meu Nome É...Tonho”. O primeiro inaugurou a moda de filmar no Brasil enredos que se passam nos Estados Unidos e/ou México, seguindo os modelos dos popularíssimos westerns espaghettis da época. O México do diretor e protagonista Adolpho Chadler ficava em Cabo Frio (RJ), Congonhas do Campo (MG), Brejo de São José (PE) e Maceió (AL).
Já “Meu Nome É...Tonho”, ambientado no Brasil mesmo, foi rodado na mesma Vargem Grande do Sul que servira de cenário para “O Cangaceiro”. A direção leva a assinatura do ex-caminhoneiro Ozualdo Candeias, idolatrado pela crítica por seu “A Margem” (1967), marco zero do cinema marginal. Seu faroeste caipira desconstrói os clichês do gênero com o mesmo vigor de “Era Uma Vez no Oeste” (C´Era una Volta Il West, 1968), do italiano Sérgio Leone. “O bangue-bangue americano era safado, tinha um quê de manipulação. Já o bangue-bangue italiano seguia uma linha caricatural, ao mesmo tempo engraçado e crítico”, conceitua Candeias, já falecido e conhecido como o mais mal-humorado dos cineastas da Boca. “Meu filme é baseado nas coisas que eu vi e ouvi quando andava no meio dos tropeiros do Mato Grosso, mas, se quiserem chamar de faroeste, tudo bem, não dou à mínima”.
A maioria dos intérpretes de Meu Nome É...Tonho fez carreira no gênero. É o caso de Toni Cardi, 64 anos, que voltou a viver tipos rudes em “Pedro Canhoto, o Vingador Erótico” (1974), “Noiva da Cidade”, “O Desejo dos 7 Homens” (1974) e “A Última Bala” (1975). “Falar em cinema é falar em western”, reflete ele, que hoje é corretor de imóveis. “Pena que no Brasil, ao contrário de Hollywood e Cinecittá, ninguém encarava esse troço como indústria.”
Bem, tentar, até que tentaram. Carlos Augusto de Oliveira e Osvaldo de Oliveira, por exemplo, adotaram os pseudônimos de Charles Oliver e Oswald Oliver ao dirigir respectivamente, “Lista Negra para Black Metal” (1970) e “Rogo a Deus e Mando Bala” (1972). Em ambos, tanto elenco quanto equipe técnica se escondiam sob nomes americanizados. Os Oliveiras ou Olivers não eram parentes (Carlos Augusto, aliás, é pai da ex-senhora Chiquinho Scarpa, Carola e irmão do ex- todo poderoso da Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni). No Brasil, surgiu até uma sátira à já satírica série Epaghetti Trinity, intitulada “Trindad...É Meu Nome” (1974). O galã David Cardoso e o gordo Carlos Bucka ocupavam o lugar de Terence Hill e Bud Spencer.
Os westerns eram levados tão a sério que o produtor Roberto Farias quase contratou o italiano Giuliano Gemma para estrelar um faroeste no Mato Grosso do Sul, “Cainangue, a Pontaria do Diabo” (1974). Diante da recusa, tentou o também outro astro do espaghetti: Anthony Steffen ou Antônio de Teffé, nascido na embaixada do Brasil em Roma e criado na Itália. “Ainda foram cogitados os nomes de Roberto Carlos, mas ele não poderia montar a cavalo por causa da perna mecânica e do Érasmo que estava gordo demais na época”, entrega David Cardoso, (64 anos), para quem sobrou o papel principal da refilmagem não-assumida de “Os Brutos Também Amam” (Shane, 1953) de George Stevens. Outro grande ídolo do gênero foi Tony Vieira. Nascido, Mauri de Oliveira Queiroz, em Dores do Indaiá, Minas Gerais, ele tem uma trajetória que lembra muito a de seu ídolo, Clint Eastwood. O ator norte-americano atuou em filmes B e num seriado de TV antes de ser convidado para estrelar “Por um Punhado de Dólares” (Per un Pugno di Dollari - 1964) de Sérgio Leone. O sucesso mundial dessa co-produção ítalo-hispânico-germânica desencadeou a febre dos westerns espaghettis. Eastwood rodou mais duas produções bem sucedidas com Leone, voltou para os EUA e firmou-se como astro e diretor. Tony Vieira, por sua vez, foi vendedor de balas, trapezista e lutador de telecatch antes de fazer figuração nas novelas da TV Excelsior de São Paulo. Começou a carreira cinematográfica como coadjuvante em “Panca de Valente” (1968), de Luís Sérgio Person e “Uma Pistola para Djeca” (1970) com Mazzaropi - coincidentemente, duas sátiras ao espaghetti. Virou protagonista ao intepretar o herói Caviúna em “Quatro Pistoleiros em Fúria” (1972) e na seqüência “Um
Pistoleiro Chamado Caviúna” (1972), ambos dirigidos pelo polonês Edward Freund.

No mesmo ano, Tony assumiu a direção e estrelou o megasucesso “Gringo, o Último Matador”. O elenco incluía ainda o careteiro Heitor Gaiotti, o mentor Edward Freund (responsável pela direção da parte técnica, porém não creditado), a loira gostosa Claudette Jaubert (musa e namorada de Tony) e o cineasta “sério” Carlos Reichenbach na pele de um bandido mexicano. 
Quase um sósia de Lee Van Cleef, o ator Heitor Gaiotti, 66 anos, encarnou o parceiro malandro de Tony em mais de dez produções. Entre uma pinga e outra, ele recorda um episódio que enchia de orgulho o amigo: “A gente tinha ido incógnito a uma sessão de “Gringo” no Cine Penha. Na saída, um cara falou: “Esses brasileiros são sem-vergonhas mesmo ! Compram um faroeste italiano, dublam em português e vendem como fita nacional”. 
Tony, Heitor e Claudete fizeram uma série de filmes policiais, mas voltaram ao western em “A Filha do Padre” (1975) e “Os Violentadores” (1978). Separado de Claudette, Tony ainda rodou com Heitor os bangue-bangues “Condenada por um Desejo” (1981) e “Calibre 12” (1988). Encerrou a carreira atuando em shows de sexo explícito no centro de São Paulo. Morreu de causa não-revelada, provavelmente de aids 1990. Com o fim das salas de bairro, o advento dos Multiplex, os orçamentos milionários e a obsessão dos diretores da “retomada” (retomada de quê, cara-pálida ?) pelo Oscar, morreu também o western feijoada. Certamente, travou seu último duelo ao som de uma música surrupiada de alguma trilha composta por Ennio Morricone. 

Em 1972, à procura de áreas para lotear na região de Ribeirão Bonito, no interior paulista, o corretor imobiliário Moacir Maurício chegou até a cidade de Dourado. Na padaria onde entrou para comer algo, deparou-se com um mexicano – não de verdade, mas desses de cinema, gorducho, com poncho, chapelão e bigode com pontas em caracol. Perguntou se ele tinha fome e, diante da resposta afirmativa, lhe pagou um lanche. Papo vem, papo vai, descobriu não se tratar de um mendigo excêntrico, e sim de um ator de Pedro Canhoto, faroeste que vinha sendo rodado na cidade havia dois anos. 

O “mexicano” Nestor Lima levou Moacir à casa onde ele e seus colegas de elenco estavam hospedados. E contou que aguardavam o retorno do diretor Raffaele Rossi, italiano radicado no Brasil, e do astro da película, o piracicabano Irineu Antonino Travalini, artisticamente conhecido como Toni Cardi. Os dois tinham partido em busca de um produtor disposto a investir o dinheiro necessário para conclusão do filme.

A energia elétrica da casa fora cortada por falta de pagamento, e não havia mais comida para a equipe. Emocionado com o sonho daquelas pessoas, o corretor abasteceu a dispensa da casa, deu dinheiro a Nestor para que pagasse a conta de luz e voltou para Ribeirão Bonito. 

Umas três semanas depois, surgem em seu escritório Nestor Lima e o diretor Raffaele Rossi. Este veio lhe restituir o dinheiro gasto com a equipe. Cassiano Esteves, dono da distribuidora Marte Filmes, na Rua dos Gusmões, em São Paulo, aceitara investir em Pedro Canhoto e as filmagens podiam enfim recomeçar – foi a primeira produção de Cassiano Esteves, responsável nos anos seguintes por mais 50 filmes da Boca do Lixo. O intérprete de Rodrigo, filho do vilão coronel Martinez, havia assumido outros compromissos artísticos durante a paralisação das filmagens e não poderia retornar de imediato. Moacir Maurício tinha o mesmo tipo físico do artista ausente e foi por isso convidado a participar de algumas cenas, de costas, sem mostrar o rosto. 

O Rodrigo original acabou não voltando e o corretor assumiu de vez o papel, fazendo assim sua estreia no cinema – ele rodaria apenas outros dois filmes, ambos também da E. C. Produções Cinematográficas, produtora criada por Cassiano Esteves para Pedro Canhoto. Essa historieta de bastidores, quase anedótica, mostra bem como se deu a realização desse pastiche nacional de western espaghetti – um exemplar daquilo que a imprensa nacional começava a chamar, pejorativamente, de “westerns feijoada”. Em função da falta de recursos, Pedro Canhoto resultou num filme “remendado”. E se isso compromete a qualidade, por outro lado confere a obra um aspecto bárbaro, selvagem, que dificilmente poderia ser alcançado intencionalmente. A ação se passa na região do fictício povoado de Santa Clara de La Sierra, na fronteira dos Estados Unidos com o México. 

A mando do coronel Martinez (Cavagnole Neto), os capangas do mercenário apelidado de General (José Velloni) matam a família de Pedro (Toni Cardi). Este acaba capturado por Rodrigo (Moacir Maurício) e pelos homens do General, que o torturam, esmagam os dedos de sua mão direita e deixam-no amarrado para morrer. Um velhinho mexicano (Nestor Lima) passa por ali com seu burrico e consegue libertar o “gringo”. Com a mão direita toda enfaixada, o personagem-título aprende a atirar com a esquerda e parte para o acerto de contas. Se junta a ele um mendigo (Nivaldo Lima) que testemunhara o massacre da família de Pedro – na verdade, trata-se de um temido pistoleiro que havia abandonado a vida de crimes.
 
As referências aos westerns spaghetti começam pela trilha sonora que se apropria sem cerimônia de temas musicais como os de “Por um Punhado de Dólares” (1964) e “O Dólar Furado” (1965). Na época, a coletânea O Melhor do Bang-Bang à Italiana fazia enorme sucesso nas lojas de discos do Brasil; é provável que as músicas ouvidas em Pedro Canhoto tenham sido extraídas diretamente dos sulcos daqueles LPs (há apenas uma composição original, por sinal composta pelo corretor imobiliário convertido em ator, Moacir Maurício).

Num rápido flashback, quando o mendigo relembra os homens que já matou, vemos um duelo inspirado no final de “Três Homens em Conflito” (1966): o personagem de Nivaldo Lima enfrentando o de Heitor Gaiotti, em participação especial, num cemitério. Gaiotti, vale lembrar, se parecia fisicamente com Lee Van Cleef e costumava encarnar um tipo malandro nos westerns feijoada de Tony Vieira – bem aos moldes do Tuco vivido por Eli Wallach naquela obra-prima de Sergio Leone. O esmagamento dos dedos do herói busca reproduzir uma das duas seqüências mais marcantes de “Django” (1966) – a outra é a da metralhadora no caixão, claro. Também vem do clássico dirigido por Sergio Corbucci a inspiração para as cenas nas quais o sádico General manda seus capangas torturarem a amante dele, Mariana (Adélia Coelho), que nadava nua num lago.

O intérprete do General, aliás, foi outro ator colocado no filme já com as filmagens avançadas. Vereador em Ribeirão Preto, José Velloni havia atuado com o astro de “Pedro Canhoto”, Toni Cardi, em algumas comédias de Mazzaropi. E aceitou o convite dele para substituir o primeiro General, um italiano que era dono da academia de judô onde Toni Cardi treinava em São Paulo, no oitavo andar do Edifício Martinelli. Durante uma das várias interrupções da filmagem, Giovanni viajou até sua Itália natal e não voltou mais. Foram aproveitados apenas alguns takes nos quais aparecia de costas, com o traje militar, ou a cavalo junto com seu bando. É impactante a seqüência em que o General, sentado numa escadaria e bebendo vinho, ri de forma doentia enquanto “observa” seus homens espancando Pedro – claramente, as cenas de José Velloni na escadaria e as de Toni Cardi levando pancada foram rodadas em momentos distintos.


Atos nojentos de comer e beber são recorrentes em “Pedro Canhoto”, do General deixando escorrer vinho pelos cantos da boca ao mendigo que suja a própria barba enquanto come feito um animal o prato de arroz que ganhou. Cenas assim contribuem para dar ao filme um tom bizarro, quase surrealista. O cenário de fachadas de madeira também caminha nessa linha, parecendo mais uma cidade cenográfica do que uma cidade propriamente dita. E os bandidos, recrutados entre os lutadores que treinavam junto com Toni Cardi na academia de Giovanni, completam a galeria de imagens grotescas da fita – entre eles, merece destaque o nissei Kazuachi Emmi, com seus 117 quilos e 1,80 metros, na pele de um índio-mexicano.

Cassiano Esteves resolveu lançar “Pedro Canhoto” com o subtítulo de “O Vingador Erótico”, provavelmente para se aproveitar do fato de que outro western feijoada – “Gringo, o Último Matador” (1973), de Tony Vieira – vinha sendo exibido em algumas praças com o título alternativo de “Gringo, o Matador Erótico”. No cartaz, em vez de usar alguma das cenas de Toni Cardi com o cabelo loiro – “Fiz tanta descoloração e pintura durante esse período que quase fico careca”, lembra o galã –, o produtor preferiu uma foto de… Lee Van Cleef (!!).

Nenhuma dessas estratégias de marketing impediu o fracasso de “Pedro Canhoto, o Vingador Erótico”, lançado em São Paulo no dia 6 de junho de 1974. Os planos de Toni Cardi e Raffaele Rossi para outros filmes com o personagem foram deixados de lado. Embora o ator tenha vivido com garra uma série de personagens marcantes na carreira, nunca mais voltou a protagonizar um filme. Quanto ao cineasta, ele só emplacaria um grande sucesso de bilheteira oito anos depois, com “Coisas Eróticas” (1982) – o primeiro filme nacional de sexo explícito a ser liberado pela censura no Brasil. Mas isso, como todos sabem, já é outra história. No clássico “Rogo a Deus e Mando Bala” (1972), Charles, Mark, Jack e Paco chegam a cavalo a La Fuente, vilarejo perdido na fronteira entre México e Estados Unidos.


Mal-encarados, entram no saloon e se acomodam numa das mesas. Charles se levanta, vai até o balcão e ordena: “Me dá uma cachaça”. Cachaça ? Numa fita de caubói ? Bem-vindo ao insólito e fascinante universo dos westerns feijoada. Nunca ouviu falar deles ? Culpe os críticos dos anos 60 e 70, que não freqüentavam os cinemas da periferia e das cidades interioranas, onde os faroestes tupiniquins faziam o maior sucesso. O povão adorava aqueles tiroteios e cavalgadas em português sem legendas. Quem achava o Cinema Novo o máximo, contudo, não engolia pérolas da estirpe de “Gregório 38” (1969), considerado “uma cópia servil, um carbono grosseiro e mal armado de todos os clichês instituídos pelo western americano”, segundo o crítico Alberto Silva, do Jornal do Comercio. Que arremata, sem dó nem piedade: “Uma linguagem primariamente acadêmica serve a todos os cacoetes do faroeste de terceira classe. O destino de “Gregório 38” é o lixo, na melhor das hipóteses”...Ok, ele tem alguma razão. Nesses filmes, os vilões bebem vinho no gargalo, dão tiros para o ar e gritam “irrááááááá”. Depois, roubam as terras, o gado, o dinheiro (ou todas as alternativas anteriores) do mocinho.

De quebra, violentam mulheres e alguém da família dele. Este, p. da vida, desce o sarrafo nos meliantes e depois os enche de chumbo. Em alguns casos, os enche de chumbo e desce o sarrafo neles. Definição curta e grossa: é filme de macho.

Fonte/Colaboração/Autorização de Rodrigo Pereira jornalista e pesquisador. Escreveu com Daniel Camargo e Fábio Vellozo a biografia de Anthony Steffen “A Saga do Brasileiro que se Tornou Astro do Bangue-Bangue à Italiana” (Editora Matrix, 2007). Atualmente prepara o livro-reportagem Faroeste Caboclo – Filmes de Cangaço e Westerns Made in Brazil, baseado em sua dissertação de mestrado, Western Feijoada: o Faroeste no Cinema Brasileiro (2002). Compilação: Edelzio Sanches (Setembro 2012).

10 comentários:

  1. Olá, Edelzio - Oportuno lembrar do Ciclo Campineiro que começou em 1954 com Antoninho Hossri. Enquanto no Rio a Atlântida parodiava com muita graça Matar ou Morrer, Hossri com seu mocinho Mauricio Morey produzia faroestes sérios que merecem ser vistos. Homens Sem Paz e Da Terra Nasce o Ódio circulam em DVD, ainda que não sejam fáceis de ser encontrados. - Um abraço do Darci Fonseca

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    Respostas
    1. É pena que nada que é arte nesse país não valha nada.
      O que vale aqui é só querer levar vantagem em tudo. (O jeitinho brasileiro).
      Nesse país não se tem memória e nada fica conservado, tudo é perdido e destruído [roubaram e derreteram a Copa do Mundo] e dái pra frente.
      Nossa juventude enterrada em coisas que não vão levar a nada, não passam de 30 anos de idade, se não for preso [ninguém fica] vai pro caixão.
      É meu amigo, nós eramos felizes e não sabíamos, ainda reclamava-mos de coisas que hoje nem imaginaríamos que fosse existir.
      A molecada quer ficar nóia, prazer ao extremo sem pensar que podem ter dezenas de anos pela frente, gastam tudo de uma vez. No dia seguinta após a balada não lembram de mais nada.
      A mulher está banalizada, hoje a maioria so serve pra sexo e reprodução como diz Arnaldo Jabour da Rede Globo.
      A minoria ainda procura a emoção em um romance mas já está escasso.
      Enfim... Lembramos aqui o título de um filme com Rock Hudson e James Dean:
      "Assim caminha a Humanidade"

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  2. Li surpreso este post. Jamais me passou pelo juízo esta história, bastante longa e atraente do nosso cinema, pegando carona no Spaghetti Western, demonstrando assim, a influência positiva desta vertente Italiana, que ao contrário de muitos críticos, querendo ou não, este movimenteo influenciou positivamente o mundo do cinema.
    Vou sair em campo a procurar estes filmes.
    Valeu muito mestre Edelzio.

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  3. Sim, é isso mesmo, os poucos brasileiros que se aventuraram em pegar carona no Western Espaghetti não desapontaram e fizeram bons filmes conhecidos na época como Western Feijoada tendo Tony Vieira como um dos principais articuladores.
    Acho que é por isso que o Brasil tem milhares de fãs no Espaghetti, o nosso país teve as mesmas tradições e costumes dos italianos, espanhóis, enfim, tudo para da certo.
    Estes filmes são muito procurados por estrangeiros para seus acervos internacionais.

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  4. Eu assisti "A filha do padre" na TV,na década de 80, no qual a personagem principal carregava uma cruz, numa referência clara a Django. Na trilha sonora praticamente todas foram copiadas do spaghetti. Tinha um misto de interessante e grotêsco ao mesmo tempo. Algumas cenas até que impressionavam mesmo,como uma em que o protagonista salva a moça que estava para ser estuprada (acho que era a tal da filha do padre). As mãos dele aparecem em primeiro plano com o som de sua voz e da música ao fundo (lembro bem que era uma de Por uns dólares a mais),criando aquela expectativa típica do western spaghetti, para logo depois sacar, quando então ouvíamos os estampidos (também copiados do spaghetti,fortes,cheios e simbólicos)e víamos finalmente o seu rosto, tudo seguindo as etapas da sequência de um spaghetti, bem leoniano. Guardando, claro, as devidas proporções de qualidade na direção. Assisti um outro também que me ficou a dúvida se era europeu, no caso italiano, ou se era nacional,mas me lembro bem que era de uma qualidade superior ao "A filha do padre". Não me lembro daqueles atores atuando no cinema nacional ou na TV, mas como os críticos desprezavam esse tipo de produção como foi registrado no texto acima, é bem possível que tenham ficado no ostracismo.O pai do protagonista era uma espécie de general sádico. Faziam parte também do elenco duas atrizes muito bonitas. Terminou com FIM no final e não FINE ou THE END,e as músicas foram todas retiradas dos filmes de Sergio Leone, já na abertura. Alguém com uma memória boa poderá lembrar.

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  5. Muito bom, Eldézio! Você sempre com matérias brilhantes. Não vi muita coisas desses westerns, inclusive porque é um pouco difícil encontrar hoje. E quando encontramos geralmente é em DVDs de baixa qualidade. Mas tudo bem. Nesse caso, vale o esforço de tentar assistir. Esses personagens são muito interessantes justamente por guardarem características de nossa cultura e do nosso povo; nos ajudam a entender certas coisas. São, eu diria, obrigatórios sobretudo para os amantes de western.

    Abraço!

    Vinícius Lemarc

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  6. Bons tempos em que todos os paizes do mundo tentavam imitar Hollywood, cada qual com sua originalidade e o Brasil se saiu muito bem em Westerns e Comédias nos anos 40 e 50, enfim era pura arte.
    Não existia o mundo virtual que você ve hoje e não sabe o que é real.

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  7. "É pena que nada que é arte nesse país não valha nada.
    O que vale aqui é só querer levar vantagem em tudo. (O jeitinho brasileiro)."
    - É, Edelzio, você sintetizou muito bem. E sobre os westerns produzidos no Brasil, tive a felicidade de ver ROGO A DEUS E MANDO BALA [Que hoje possuo em minha coleção com ótima qualidade] no cinema, burlando a censura da época, usando o meu "jeitinho", já que eu era menor de idade. E ainda vi CAINGANGUE com Davi Cardoso e mais uns dois com Tony Vieira. E confesso que, naqueles anos de ouro, apogeu das produções italianas, as produções brasileiras eram encaradas pelo mesmo público, com o mesmo entusiasmo, pelo me lembro da época. Estou pensando seriamente, e já comentei até com alguns amigos como Jack Betts e Robert Woods, em escrever um livro de memórias sobre aqueles filmes, porque tenho material tanto na cabeça quanto em arquivos, para pelo menos 10 ou 15 filmes memoráveis, mostrando como era estar num cinema daqueles tempos, a reação do público diante de algumas cenas, etc.

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  8. Estes filmes ainda são muito cultuados e procurados no Brasil.
    Se você escrever o livro eu ajudo a divulgar para os fãs.

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  9. Hola, ¿alguien tiene la película de "O Tesouro de Zapata" (1968)?
    ¿la puede subir a YouTube o a Mediafire?

    Gracias, espero y me puedan ayudar, este es mi e-mail: usielmg@outlook.com

    http://www.imdb.com/title/tt0188232/?ref_=fn_al_tt_1

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